Arrumei o cabelo que insistia em cair no meu olho e fiquei analisando aquele aglomerado de letras e pontos gráficos na minha frente. A cada toque do meu dedo, palavras iam se formando e traduzindo as milhares de imagens que atormentavam minha mente. O dia tinha sido, como sempre, uma merda. Eu nunca gostei muito do meu trabalho (mas não posso reclamar, tendo meu salário ao fim de 30 dias, está perfeito). Mas o problema é que nunca nessa vida eu me acostumaria a trabalhar com público.
Sempre fui uma pessoa fechada, quieta e com poucos amigos. Podem me chamar de anti-social. Eu sou mesmo. Não gosto de muitas pessoas ao meu redor. Odeio lugares lotados e não suporto os outros me olhando. E resolvi logo trabalhar num banco, grande idéia. Paro de pensar nisso um momento. Tempo suficiente para acender um cigarro. Eu volto ao devaneio a cada tragada.
Escrever me faz viajar. Sair do lugar comum e me colocar em situações mais adversas, situações estas que possivelmente eu nunca teria coragem para me colocar. Já disseram que a cada dia eu estou ficando mais doido, o que me faz pensar: Como discutir com estas pessoas se eu mesmo me sinto mais louco a cada momento da minha vida. Mas por que eu vim aqui mesmo. Tenho certeza de que não foi para ficar falando de mim. Sim, lembrei.
Quando cheguei em casa hoje, depois de conversar com alguns amigos e ver as noticias que me interessam, pensei em escrever sobre alguns assuntos que ouço por aí. Uma coisa meu emprego me ajudou. Por ver pessoas diferentes a cada minuto, pude começar a analisar o comportamento humano. Numa fila de banco, aqueles que conversam o fazem por dois motivos. Ou por não ter amigos ou simplesmente porque está frustrado e precisa descarregar isso. Mas será que não há lugar melhor para fazer isso? É só eu abrir a boca num cordial “Bom-dia” para me encherem com suas idéias sócio-politicas pré-formadas pela mídia tendenciosa que temos.
Merda. Ficar tanto tempo na frente do computador chega a dar dor de cabeça. Me levanto devagar e saio do quarto. Chego no banheiro com certa dificuldade. Olho no espelho e tenho uma sensação de Dejá Vu. Acho que já escrevi alguma coisa assim. Deixa pra lá. Molho o rosto com um pouco de água fria e percebo que esta será uma noite longa. Volto pro quarto e o silêncio agora impera no local. O CD acabou pela vigésima vez. Como a preguiça é grande e como não vou suportar ouvir alguém cantando ‘please, Mr sun don´t take away my Virginia” de novo, prefiro deixar o rádio desligado.
Sento de novo na frente da tela cheia de palavras, mas não consigo digitar mais nada. Olho para os lados e vejo um livro antigo. Fazia tempo que não o abria. È um estudo sobre a obra de Webber. Alguém ai sabe quem foi Webber (espero, pelo bem da humanidade, que digam sim). Desculpem o linguajar, mas Webber foi um puta pensador, um sociólogo fudido. Suas idéas perduraram por anos a fio. Ainda hoje ele é estudado nas aulas de sociologia e filosofia. Webber dizia que conforme a sociedade avança, a razão humana se fragmenta.
Concordo com ele. Parece que com o avanço de certas tecnologias, o homem padrão (para não generalizar) parou de pensar um pouco. Logo, as máquinas estarão fazendo tudo para o homem, enquanto este poderá desfrutar uma cerveja gelada assistindo ao futebol no domingo à tarde. Mas quem sou eu para falar qualquer coisa? Sou um nada. Num mundo tão grande, é pretensioso da minha parte achar que minhas palavras farão alguma diferença.
Para falar a verdade, acredito que minha própria existência não faz diferença nenhuma à ninguém. Olho pela janela do quarto e vejo as luzes da rua, dez andares abaixo. Minha vida parece tão insignificante aqui de cima. A dor de cabeça ainda não passou, mas agora não importa mais. Essa é minha despedida, e meu legado eu levo comigo ao inferno. São meus pensamentos e minhas lembranças. Seu rosto sorrindo alegremente. Isso era tudo que eu tinha e disso eu não abro mão jamais. Algum dia a gente se encontra novamente. Te amo! Adeus.
Não vejo mais nada. Sinto apenas o vento no meu rosto, fazendo meu cabelo dançar freneticamente. Gritos de “meu Deus” ecoam pelo ar. Por um momento me sinto livre. E eu vejo o rosto dela e me pego cantando, please, Mr Sun, don´t take away my Virginia.
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