terça-feira, 25 de agosto de 2009

Estudo Sociológico

Estudo realizado numa experiência única... uma das melhores que eu já vivi! Enjoy!



Acordei meio tarde, como sempre faço quando esqueço que tenho reunião no banco. Tomei o banho mais rápido da minha vida, coloquei a primeira camisa que vi no guarda-roupa, engoli um pedaço de pão e um copo de suco e quando menos percebi já estava sentando no banco do ônibus. O caminho da minha casa até o trabalho demora aproximadamente quinze minutos. É um tempo extremamente curto, não me permitindo fazer nada de interessante. Vou olhando as paisagens pela janela. As pessoas correndo apressadas para seus trabalhos. Estranhos que têm os mesmos problemas, as mesmas angústias, os mesmos desejos e os mesmos medos que eu.
Eu nunca tive pretensões de ser um psicólogo. Muito menos teria coragem para tentar desbravar os mistérios da mente humana. Somos animais altamente avançados. E este desejo de compreender nossa psique é demais para os meus conhecimentos escassos. Porém eu tenho meu meio, onde analiso e penso as pessoas. Não de maneira individual. Eu tenho um que de sociólogo. Gosto de estudar o homem em sociedade. Acredito que por ser um pouco anti-social, adquiri essa vontade de sabre o porque da associação. Qual a razão e quais os motivos que levam o ser humano a se relacionar com outros de sua espécie. E por último, quando surgiu o que chamamos de estado de convivência.
Como toda ciência, a sociologia tem como principal método de pesquisa a observação. Deve ser por isso que eu gosto de olhar e analisar o comportamento das pessoas em situações adversas. Como é possível num grupo restrito, uma mesma cena provocar sentimentos tão diferentes. Vou relatar a minha última (e única) pesquisa. Confesso que o estudo aconteceu por coincidência e eu não esperava que acontecesse. Mesmo por que eu acabei fazendo parte da experiência, como mais uma cobaia.
Primeiramente, embora eu estude a sociedade, não posso me curvar sobre todas as pessoas do mundo. Por isso, analiso um pequeno grupo e os dados obtidos eu generalizo. Não é o método ideal, mas para um iniciante como eu, é o suficiente. No meu caso especifico, eu investiguei um grupo de quatorze pessoas isoladas num sitio. Longe da civilização e de outros indivíduos (sei que parece só mais um reality show, mas não é).
Bom, essas pessoas decidiram por consenso ficar naquele local. No momento em que propuseram a idéia e todos aceitaram, percebemos a primeira noção da sociedade: o Contrato Social. Eles se prontificaram e ficar juntos e trabalharem para que isso desse certo. Eles não queriam ficar sozinhos. Conforme John Locke, foi dessa mesma maneira que o que conhecemos hoje como Estado Social teve inicio. Porém, esse grupo fez escolhas diferentes, preferindo não adotar uma soberania. Ali, todos eram livres para fazer o que quiser. Para tanto, para existir a convivência, deveriam se unir.
Eles imaginavam uma sociedade perfeita, assim como Thomas Moore fez em seu “A Utopia”. Utopia é uma ilha onde reina a igualdade e a concórdia. Todos têm a mesma condição de vida. Uma vida simples, sem luxo e onde todos trabalham. Moore expressa em sua obra os ideais de vida moderada e igualitária, semelhante aos praticados pelos monges nos mosteiros pré-renascentistas. Era dessa maneira que o grupo se imaginava.
E tudo corria bem, até que deparamos com a individualidade humana. Acredito que este ponto seria explicado de maneira mais contundente por alguém com conhecimentos mais vastos da mente. A minha teoria é a mesma de Nietzschie: o homem é egoísta por natureza. Cada um preza o seu. Foi por este fio condutor que a propriedade privada foi criada. Marx lutou bravamente contra esse ideal capitalista. Bom, continuemos em nossa experiência.
Em determinado ponto da mesma, presenciamos a transformação da nossa sociedade em algo menor. As discussões esquentaram e houve a transição de Estado igualitário ao que os estudiosos chamam de “Vida Nua”. A Vida Nua é exatamente a ausência de regras, onde todos pensam em si. A sociedade não existe mais e o ser humano não mais convive com seus iguais. Bom, já que estamos falando da Vida Nua, vamos discutir um pouco sobre o Homo Sacer. Como minha professora me disse certa vez, “Homo Sacer é o cara que se fode”. Sempre que há esse tipo de ruptura, elegem um Homo Sacer, que seria algo como a pessoa que será sacrificada pelo bem maior. Este foi outro fato interessante na minha experiência: no caso daquele pequeno grupo, não houve um sacrifício. Isso colaborou bastante no final.
A vida em sociedade não é fácil mesmo, e ao idealizarmos aquela vida perfeita, fomos iludidos. As coisas tendiam a ficarem pesadas. E Ficaram mesmo. A abstinência de alguns, os mal entendidos, as palavras soltas no ar e a falta de alguns recursos essenciais aceleraram o desgaste. Por isso que eu guardo em minha cabeça a idéia de que num futuro não muito longínquo, com a escassez dos recursos naturais, o homem começará a sair da vida em sociedade e passaremos para a Vida Nua de maneira mais drástica.
Segundo Durkheim, para existir vida social, deve haver a coerção social, ou seja, a força exercida sobre os indivíduos, levando-os a se conformar ás regras do local onde vivem, independente de sua vontade e escolha. Essa força se demonstra quando o sujeito adota determinado idioma, se submete a determinado tipo de formação familiar ou quando está subordinado a determinado código de leis. E isso faltou em meus experimentos naquele grupo. Por isso que embora aparentemos ter formado uma sociedade, o que de fato ocorreu foi tão somente um ajuntamento. De pessoas que queriam realmente fugir das regras de convivência e quem sabe, sentir-se livre.
Sem nos perdermos, falemos agora sobre o organismo em adaptação. Depois dos acontecimentos supracitados, nos deparamos com uma das máximas de Durkheim: acontecimentos ruins servem à sociedade, quando destes, surgirem a adaptação e sua decorrente evolução. Toda sua teoria pretende demonstrar que os fatos sociais têm existência própria e independem daquilo que pensa e faz cada individuo em particular. È nesse ponto onde minhas idéias diferem das dele. A sociedade é o convívio dos sujeitos e suas individualidades. É preciso aprender a aceitar os pensamentos particulares de cada um.
E foi isso que pôs fim ao meu tão grandioso experimento. As pessoas evoluíram. Criaram-se novos enlaces. A amizade e vontade de viver naquele lugar idealizado poucos dias antes voltavam à tona. A ação social pregada por Weber, onde o homem retomava seu lugar de destaque no estudo sociológico vinha aparecendo. Não mais nos sentíamos obrigados a conviver. Estávamos com vontade de fazer isso. E a vontade é a marca da superação. Superação de todos os problemas encontrados no caminho do nosso tão belo sonho. Sonho?
Acordei desse pensamento um pouco tarde. Já tinha passado dois pontos de onde deveria ter descido. Realmente o caminho era curto demais para uma investigação tão longa. E como sempre, vou chegar atrasado novamente. Mas naquela agência há soberania e eu me comprometi a seguir certas normas. Ali sim, dentro daquelas quatro paredes uma sociedade existe. A minha viagem (ou experiência, como preferirem) foi uma Utopia, um sonho que se tornou realidade. Agora é melhor eu me calar que a gerente me viu chegando. Dessa vez serei eu a ser o Homo Sacer.

Sei que deve ter ficado cansativo. Tem muitos detalhes e apliquei muita teoria num espaço muito curto. Até eu, que já conhecia todas as correntes de pensamento e seus idealizadores, me perdi. Mas espero que tenham gostado, por que sinceramente, adorei escrever.




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