terça-feira, 4 de agosto de 2009

Alma

Um dos primeiros contos que escrevi seriamente. Enviei para um concurso de contos da ABL, conseguindo uma 15ª posição, com muito louvor. Espero que apreciem!



Paulo abriu os olhos devagar. Uma névoa cobria seu olhar e inúmeras sombras se formavam ao seu redor. A luz do sol penetrava pelas frestas da janela, iluminando parte do quarto. Sentou-se e por um momento permaneceu imóvel, experimentando os últimos resquícios de seu sonho. O ruído dos carros afastavam-no cada vez mais do mundo imaginário. Levantou-se vagarosamente e se dirigiu, ainda cambaleando de sono, para o banheiro.
Não se sentia muito bem naquela manhã. Principalmente por saber o que lhe aguardava. Um dia tedioso, como todos os que vinha passando no último mês. Olhava para o espelho, mas surpreendentemente não se via. Ali, parado diante dele, estava uma sombra, um fantasma com milhares de anos. Sentia-se novamente impotente perante o tempo. E como todas as manhãs chegou a uma conclusão, estava velho.
Não era saudosista, mas de vez em quando se pegava pensando no passado. Pensando em dias que passou, nas pessoas que conheceu e nos beijos que trocou. Pareciam tão distantes esses tempos. E não sabia porque, mas esse sentimento de saudade não ajudava muito com sua depressão. O devaneio passou com um bom esguicho de água gelada no rosto.
A casa estava vazia e o silêncio era quebrado apenas pelos barulhos da rua. Voltou para o quarto e abriu a janela. Uma leve brisa fria atingiu seu corpo, renovando um pouco sua alma idosa. A vista não era maravilhosa, mas era reconfortante ver o mundo em funcionamento. Uma fina garoa caia sobre a cidade, limpando as impurezas do mundo. As pessoas corriam, apressadas em chegar aos seus trabalhos o mais seco possível e é justamente quando via isso que ficava feliz por ter decidido não ir trabalhar naquele dia.
Olhou para o relógio que já marcava 8 horas da manhã. Tornou a olhar pela janela, respirou profundamente e virou-se, deixando para trás a chuva, as pessoas, o som das gotas caindo nas poças, o farfalhar das folhas das árvores mais próximas e tudo que o fazia sentir-se vivo. Saiu do quarto vagarosamente, fechando cuidadosamente a porta. Não queria de jeito nenhum acabar com o silêncio que tanto gostava.
Mas logo ao fechar a porta percebeu vozes vindo do andar de baixo. Pelo menos duas pessoas conversavam e ele tinha certeza que uma delas chorava bastante. Esgueirou-se até o começo da escada, mas ainda assim não via ninguém lá embaixo. Ao tentar dar mais um passo percebeu que estava pisando em algo. Abaixou-se para ver o que era e para sua surpresa o liquido espesso que percorria toda sua mão era sangue. Ele se viu no meio de uma enorme poça vermelha.
Ele se desesperou, não sabia o que fazer. Voltou para o quarto, tentando não chamar a atenção das pessoas lá embaixo. Ao entrar, depois de trancar a porta, caiu na cama. Sua mente trabalhava rapidamente e milhares de coisas passavam por sua cabeça. Não sabia porque, mas não se lembrava de nada sobre a noite anterior. Isso o estava deixando cada vez mais nervoso. Será que ele teria feito alguma besteira? De quem era aquele sangue? E quem eram as pessoas lá embaixo?
Ainda estava imerso em seus pensamentos quando reparou a porta do quarto se abrindo. Ficou petrificado e imaginou que o pior estava para acontecer e para piorar a situação, ele tinha certeza de ter trancado a porta. A porta se abriu totalmente e um homem entrou. O susto se transformou em surpresa e logo em um medo descomunal. Diante dele um policial vasculhava o quarto, mas estranhamente não olhava para ele. Além disso, o policial parecia distorcido, como se fosse um fantasma.
O policial parou de investigar e por um longo momento olhou fixamente para ele. Depois de se certificar que não havia mais nada pra olhar, o policial gritou que o quarto estava limpo e saiu, deixando Paulo completamente atônito. O que diabos tinha acontecido ali. Resolveu descer e ver uma vez por todas o que estava ocorrendo. Saiu do quarto, passou pela poça de sangue e desceu a escada.
A casa parecia ter sido devastada por um furacão. A sala estava uma verdadeira desordem. Muitas coisas destruídas e muitas desaparecidas. Uma faixa de isolamento fechava a porta de entrada. Ele seguiu as vozes e foi direto para a cozinha. Lá encontrou mais um policial. Os dois policiais conversavam com uma linda moça de aproximadamente 25 anos. Ela era loira e seus olhos eram de um maravilhoso azul claro. Ele a reconheceu rapidamente. A moça era sua namorada. Ele a olhava como se fosse a primeira vez, e sentia-se como se estivesse se apaixonando por ela novamente. A moça chorava muito enquanto conversava com os dois policiais.
Estranhamente ele não conseguia enxergar muito bem. Tanto os policiais quanto sua namorada estavam completamente disformes, como se não passassem de sombras, sombras de um passado ao qual ele não pertencia mais. Ele fechou os olhos e aos poucos sua mente foi clareando e como flashes ele se lembrou da noite anterior. Lembrava-se de um homem entrando em seu quarto e o acordando. Depois de um luta e então o homem puxou uma faca. Nesse momento Paulo sentiu a lâmina fria entrar em corpo, rasgando sua pele dolorosamente. Ele se lembrava perfeitamente da dor.
Abriu os olhos e caminhou até o fim da cozinha e viu seu corpo estendido atrás do balcão. A camisa manchada de sangue e sua pele morbidamente branca. Ao olhar aquilo sentiu uma lágrima escorrer por seu rosto. Sabia que era impossível, mas mesmo assim sentiu-a em sua face. Uma forte luz tirou-o do transe. A luz vinha do fim do corredor e iluminava todo o ambiente. Ele sentia uma quente brisa vindo em sua direção e pela primeira vez desde que havia acordado sentiu seu corpo esquentar.
Virou-se e olhou para aquelas pessoas em sua cozinha e se lembrou que jamais poderia se despedir da pessoa que mais amava no mundo, mesmo ela estando ali, a menos de 5 metros. Naquele momento se arrependeu de tudo que fizera de errado na vida, mas acima de tudo, se arrependia por nunca ter dito o quanto a amava. E pela segunda vez deu as costas e deixou para trás as pessoas, o som da chuva, o farfalhar das árvores e o gosto dos beijos, o amor e tudo que o fazia sentir-se vivo, e caminhou em direção a luz.
E para a surpresa dos Policiais, ao aproximarem-se do corpo viram que havia uma pequena poça de água ao seu lado. Eles jamais iriam descobrir que aquilo eram lágrimas de uma alma perdida.

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